Singapura deixou de caçar textos escritos por máquinas e começou a perguntar aos alunos o que é que eles sabem. Nós ainda vamos a tempo.

As universidades de Singapura tornaram público aquilo que muitos docentes portugueses já perceberam em privado: a era do trabalho escrito entregue no fim do semestre terminou. As seis universidades autónomas do país reorganizaram a avaliação em torno de defesas orais, provas feitas na aula e entregas faseadas com rascunhos visíveis. Uma delas anunciou em agosto que deixa de usar detetores de inteligência artificial. Outras três nunca os usaram. A justificação é técnica e é honesta: estas ferramentas assentam em inferência estatística e não em prova, sinalizam indevidamente a escrita bem estruturada e penalizam quem não escreve na sua língua materna.
Em Portugal continuamos na fase anterior. A conversa nas escolas ainda é sobre deteção. Compram-se licenças, discutem-se limiares de percentagem, abrem-se processos com base em relatórios que nenhum de nós saberia defender perante um tribunal. Conheço colegas que passaram noites a comparar parágrafos, convencidos de que protegiam a instituição, quando estavam a gastar o melhor da sua energia no sítio errado. A estratégia tem duas fragilidades. A primeira é que não funciona. A segunda, mais grave, é que nos distrai do problema real.
Escrevo isto sem o conforto de quem observa de fora. Há anos que resolvi, com os meus assistentes, este assunto nas minhas unidades curriculares, e resolvemo-lo antes de existir ChatGPT, porque o problema também é anterior ao ChatGPT. Um trabalho entregue fora da sala nunca foi boa prova de aprendizagem. Podia ter sido feito por um colega, comprado, reciclado de um ano anterior, montado a partir de três fontes mal digeridas. A inteligência artificial não criou esta vulnerabilidade. Tornou-a universal, gratuita e instantânea. O que antes exigia dinheiro ou cumplicidade passou a exigir trinta segundos.
O que fazemos é simples de descrever e exigente de executar. O enunciado é entregue com semanas de antecedência e o uso de IA na preparação é não só permitido como esperado. O que conta para a nota acontece depois, na presença do aluno: a discussão de um caso clínico, a resposta a perguntas que não estavam no guião, a justificação de uma decisão que ele próprio propôs. Pergunto porquê esta opção e não a outra. Pergunto que evidência sustenta aquela afirmação. Pergunto o que faria se o doente tivesse outra comorbilidade.
E depois assisto a uma coisa que nenhum relatório de plágio me daria. Há alunos que hesitam nos primeiros trinta segundos, respiram fundo, e a partir daí não os apanho em nada. Há outros, com textos impecáveis, que emudecem à segunda pergunta e percebem ali, à minha frente, que afinal não sabiam. Ao fim de tantos anos ainda não me habituei a estar do lado de cá da mesa quando isso acontece. Mas é um momento verdadeiro, e é melhor que o aluno o viva naquela sala, comigo, do que três anos depois em frente a um doente.
O efeito mais interessante não é a integridade. É a aprendizagem. Quem sabe que vai ter de defender oralmente o que escreveu deixa de otimizar para o texto e passa a otimizar para a compreensão. E treina aquilo que lhe será pedido todos os dias da vida profissional: pensar de pé, perante alguém que discorda, sem tempo para consultar nada.
Na educação médico-dentária europeia isto não é opinião minha. É doutrina assente. O quadro de referência da ADEE, a Association for Dental Education in Europe, descreve o diplomado por competências: profissionalismo, prática clínica segura, cuidado centrado na pessoa, o lugar da profissão na sociedade e muito mais . Como se verifica cada uma delas é pergunta com resposta há mais de trinta anos. A pirâmide de Miller distingue quatro patamares: saber, saber como, mostrar como e fazer. Um trabalho escrito mede o primeiro e arranha o segundo. Tudo o que justifica a existência de um curso de saúde está nos dois de cima, e os dois de cima só se tornam visíveis quando alguém observa o aluno a executar e a decidir.
Daqui decorre a consequência que muda o debate. Se um curso faz depender a classificação de um único instrumento de alto risco, uma tecnologia que comprometa esse instrumento é uma crise. Se avalia por observações múltiplas e distribuídas ao longo do percurso, nenhuma ferramenta isolada o derruba, porque a fiabilidade não está em nenhuma prova em particular, está no conjunto. As instituições que entraram em pânico com a inteligência artificial são quase sempre as que tinham construído tudo em cima de uma peça só. A tecnologia não lhes criou o problema. Apresentou-lhes a fatura.
Antecipo a objeção, porque a ouço sempre e porque quem a faz tem razão em parte. Não escala. Uma turma de cem alunos não permite cem defesas orais de quinze minutos em cada momento de avaliação. É verdade, e a resposta é desconfortável: turmas muito mais pequenas. Nas ciências da saúde já sabemos trabalhar assim, porque a prática clínica nunca nos deixou fazer de outra maneira, e ninguém se lembraria de pôr cem alunos à volta de um doente. O anfiteatro cheio é que é a anomalia, herdado de um tempo em que ensinar era distribuir informação que não estava em mais lado nenhum. Essa era acabou e o formato que ela deixou não sobreviveu com ela. Dimensionar grupos é decisão de gestão, não virtude individual do docente, e digo-o com a consciência incómoda de estar dos dois lados da mesa.
Falta ainda uma regra elementar: em cada enunciado deve estar escrito se o uso de IA é proibido, permitido ou obrigatório. A terceira hipótese é a mais negligenciada e a mais formativa. Pedir a um aluno que gere um resumo com IA e depois o audite contra a literatura publicada, caçando imprecisões e referências inventadas, ensina mais sobre pensamento crítico do que muitas aulas teóricas.
No meu setor, nada disto é académico. Estes alunos vão ter as mãos na boca de outras pessoas. Vão decidir sozinhos, com informação incompleta, sob pressão de tempo, sem poder consultar nada. Serão os profissionais que hão de tratar de nós e dos nossos filhos, e essa ideia devia tirar-nos o sono muito mais do que qualquer relatório de semelhança. Se chegarem ao fim do curso sem nunca terem sido obrigados a pensar em voz alta perante quem os questiona, falhámos nós, e a falha não é do modelo de linguagem.
A inteligência artificial não veio destruir a avaliação no ensino superior. Veio expor o que ela já era em muitos sítios: uma formalidade que media a capacidade de produzir um documento e não a de compreender um problema. A pergunta que cada escola deve passar a fazer a si própria não é quantos casos de fraude detetou. É como sabe que os seus diplomados sabem.
Singapura percebeu isso e agiu. Nós ainda estamos a comprar detetores.
E os detetores não sabem nada sobre os nossos alunos.
Nós sabemos. Só temos de lhes perguntar.




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