O Roteiro que esqueceu quem transforma o país

Atualizado: há 17 horas
Portugal tem, desde 30 de março de 2026, um Roteiro Nacional para o Desenvolvimento Sustentável. É um documento sério, tecnicamente bem construído, coordenado pelo PLANAPP com o rigor que lhe reconhecemos. Faz um diagnóstico corajoso: assume a descida de Portugal no ranking internacional de sustentabilidade, a deterioração dos indicadores relativos à corrupção, as fragilidades da justiça administrativa e fiscal e o atraso na economia circular. Não é um documento de propaganda. E, precisamente por isso, merece ser lido com a mesma seriedade com que foi escrito. Merece, portanto, uma análise crítica.

A minha análise crítica é simples de enunciar: o Roteiro promete uma abordagem Whole-of-Society, mas entrega sobretudo uma abordagem Whole-of-Government. O próprio documento afirma que pretende acrescentar a perspetiva de toda a sociedade à dimensão de articulação governamental. Contudo, basta percorrer as seis transformações, o Plano para a Coerência das Políticas e os mecanismos de implementação para verificar que a operacionalização recai quase exclusivamente sobre organismos do Estado.
O Roteiro mobiliza toda a Administração Pública, mas reserva um papel secundário a dois protagonistas sem os quais nenhuma transformação acontecerá: as empresas e as instituições de ensino superior, nas suas vertentes universitária e politécnica.
Comecemos pelas empresas, e comecemos pelos números, porque eles dispensam retórica. As pequenas e médias empresas representam praticamente a totalidade do tecido empresarial português, asseguram cerca de três quartos do emprego e geram aproximadamente dois terços do valor acrescentado empresarial. Se lhes somarmos as grandes empresas, é o setor privado que sustenta a larga maioria dos postos de trabalho do país e que financia, através de impostos e contribuições, uma parte substancial do Estado que agora escreve roteiros.
É também nas empresas que se executa a maior parcela da despesa nacional em investigação e desenvolvimento, como acontece na generalidade das economias desenvolvidas. Ora, ao longo das mais de cinquenta páginas do documento, este universo aparece sobretudo como destinatário, beneficiário ou entidade regulada. É alvo de metas de digitalização, destinatário de incentivos, objeto de mobilização para a redução do desperdício e responsável pelo cumprimento de objetivos definidos por outros.
Raramente aparece como cocriador das políticas.
O Roteiro estabelece metas para a adoção de inteligência artificial, computação em nuvem, intensidade digital, emprego qualificado em investigação e desenvolvimento e criação de startups. Fixa ainda como objetivo que o investimento global em I&D atinja 3% do PIB em 2030. Mas praticamente nada diz sobre os mecanismos através dos quais as empresas participam na definição, na execução e na avaliação destas políticas.
Também não desenvolve o reporte de sustentabilidade, o financiamento sustentável, a inovação orientada para as transições climática e digital ou o papel dos setores exportadores na correção dos impactos externos associados à economia portuguesa. Essa omissão é especialmente relevante quando o próprio Roteiro reconhece que Portugal ocupa o 131.º lugar entre 167 países no índice internacional de efeitos colaterais.
O Estado não descarboniza a economia por decreto. Quem transforma processos produtivos, substitui tecnologias, reorganiza cadeias de abastecimento, investe em eficiência energética e coloca soluções no mercado são, em grande medida, as empresas. Fazem-no quando encontram regras estáveis, previsibilidade, financiamento, conhecimento e parceiros.
Um roteiro que trata o tecido empresarial predominantemente como destinatário de políticas públicas ainda não é um verdadeiro roteiro para toda a sociedade. É, sobretudo, um roteiro da Administração para a Administração.
A segunda ausência toca-me mais de perto, mas não é por isso menos objetiva. E exige rigor na formulação.
O ensino superior, nas suas vertentes universitária e politécnica, está presente no documento. Contudo, aparece sobretudo como fornecedor de qualificações, formador de professores, objeto de metas estatísticas ou conjunto de instituições chamadas a colaborar em determinadas atividades. O Roteiro estabelece como objetivos que 60% dos jovens de 20 anos frequentem o ensino superior e que sejam formados quatro novos doutorados por cada dez mil habitantes. Prevê ainda contratos-programa com instituições de ensino superior para aumentar a formação de professores.
Mas as instituições universitárias e politécnicas estão praticamente ausentes enquanto entidades responsáveis pela investigação, pela inovação, pela transferência de conhecimento, pela formação avançada, pelo empreendedorismo científico e pelo desenvolvimento territorial.
O Roteiro valoriza abundantemente a investigação, o desenvolvimento tecnológico e o investimento em I&D. Reconhece, aliás, que Portugal dispõe de um sistema científico apoiado na educação avançada e nas publicações internacionais. O que raramente faz é identificar as instituições que sustentam esse sistema científico e atribuir-lhes responsabilidades estruturantes na concretização das transformações propostas.
As instituições do ensino universitário e politécnico não surgem como parceiras de governação das seis transformações. Surgem como entidades chamadas a formar, a mapear ofertas educativas, a analisar currículos ou a participar em ações de capacitação. No Pilar 3, por exemplo, a coordenação da capacitação para a Agenda 2030 é entregue ao Instituto Nacional de Administração, ficando as instituições de ensino superior e os centros de investigação entre as entidades parceiras.
Há aqui um desequilíbrio evidente.
A Administração Pública deve, naturalmente, ser capacitada. Mas a educação para o desenvolvimento sustentável não pode ser entendida apenas como formação administrativa. É uma missão científica, educativa, cultural e cívica que deve envolver, desde a conceção, instituições universitárias e politécnicas, centros de investigação, escolas, empresas, municípios e organizações da sociedade civil.
A chamada terceira missão das instituições de ensino superior, aquela que as liga às empresas, aos territórios e às comunidades, está praticamente ausente do documento. E a ausência é ainda mais difícil de compreender quando o desenvolvimento sustentável depende precisamente da circulação do conhecimento entre ciência, economia, políticas públicas e sociedade.
O contraste torna-se particularmente evidente quando olhamos para a meta de atingir um investimento global em I&D equivalente a 3% do PIB até 2030.
Portugal criou a Agência para a Investigação e Inovação, a AI², resultante da aproximação entre os sistemas de financiamento da ciência e da inovação. O seu primeiro Conselho de Administração tomou posse em maio de 2026, com a missão expressa de aproximar a ciência das empresas e iniciar um novo ciclo na política nacional de investigação e inovação.
A definição das prioridades nacionais da AI² está, aliás, a ser conduzida através de um processo participativo que envolve instituições universitárias e politécnicas, centros de investigação, empresas, associações científicas, Administração Pública e sociedade civil.
Esse é precisamente o tipo de arquitetura colaborativa que deveria atravessar o Roteiro.
No entanto, no RNDS 2030, a AI² surge apenas em duas atividades relacionadas com o mapeamento e a análise das ofertas de ensino e formação para o desenvolvimento sustentável. Não é articulada com a meta dos 3% do PIB, nem lhe é atribuído um papel estruturante na ligação entre ciência, inovação, economia e sustentabilidade.
Um documento estratégico que fixa a meta dos 3% sem explicar como se articulam a agência que financia, as instituições que produzem conhecimento, os centros que o transferem e as empresas que o transformam em valor tem um objetivo quantitativo, mas não apresenta uma governação correspondente.
Há uma meta. Falta a arquitetura.
E falta também o ecossistema. Hospitais universitários, laboratórios colaborativos, centros tecnológicos, incubadoras, parques de ciência, interfaces de transferência de conhecimento e infraestruturas científicas são hoje instrumentos fundamentais de qualquer política de inovação orientada para o desenvolvimento sustentável. No Roteiro, não constituem uma rede reconhecida, articulada e mobilizada para atingir os objetivos definidos.
Esta lacuna torna-se ainda mais evidente quando se considera o capital humano necessário para executar as seis transformações.
Da saúde à engenharia, da educação às tecnologias digitais, da agricultura sustentável às ciências do mar, todas as transformações identificadas dependem de profissionais altamente qualificados. É nas instituições de ensino superior, universitárias e politécnicas, que esses profissionais são formados, que grande parte da investigação é realizada e que muitas das soluções que mais tarde chegam à economia e à sociedade começam por ser testadas.
No entanto, o documento praticamente não estabelece uma ponte entre as políticas que propõe e as instituições responsáveis por preparar o capital humano indispensável para as concretizar.
A saúde constitui talvez o exemplo mais evidente.
A Transformação 5 inclui medidas relevantes: a reorganização do sistema de saúde, a participação de entidades públicas, privadas e sociais nos sistemas locais de saúde, a expansão dos cuidados continuados e paliativos, o registo de saúde eletrónico único, a saúde baseada em valor e o reforço da saúde oral das populações vulneráveis.
Mas quem formará os médicos, os enfermeiros, os médicos dentistas, os farmacêuticos, os fisioterapeutas, os técnicos de diagnóstico e terapêutica e os restantes profissionais de que essas políticas dependem?
Quem investigará novos modelos de prevenção, diagnóstico, tratamento e organização dos cuidados?
Quem avaliará os resultados das políticas de saúde e quem apoiará a transformação digital do sistema?
O Roteiro identifica medidas assistenciais, tecnológicas e organizacionais, mas não constrói uma articulação estratégica com as instituições responsáveis pela formação e pela investigação em saúde. Temos jovens que querem cuidar, instituições públicas, privadas e cooperativas com capacidade para os formar e um sistema de saúde que necessita desses profissionais. O documento não estabelece uma ponte suficientemente clara entre estas três realidades.
Existe ainda uma omissão dentro desta omissão: o subsistema privado e cooperativo do ensino superior.
As instituições privadas formam uma parcela dos estudantes portugueses e desempenham um papel particularmente relevante em áreas como a saúde, as ciências sociais, a educação, a tecnologia e a formação ao longo da vida. Muitas investem recursos próprios, desenvolvem investigação, prestam serviços às comunidades e respondem com rapidez a necessidades emergentes de qualificação.
Não reconhecer devidamente esse contributo não é neutralidade. É deixar por aproveitar capacidade instalada, conhecimento, investimento e ligação aos territórios.
Chegamos, assim, ao problema de fundo. E esse problema não é semântico. É de governação.
O documento invoca a perspetiva Whole-of-Society, mas não define de forma suficientemente clara como essa participação será institucionalizada. Reconhece a necessidade de envolver partes interessadas e refere a realização de sessões de auscultação a entidades públicas, privadas e peritos. Prevê também a participação de organizações da sociedade civil e do Observatório dos ODS nas Empresas Portuguesas na elaboração do relatório de monitorização, cuja primeira edição está prevista para 2027.
Esses mecanismos são positivos, mas insuficientes.
Onde estão as estruturas permanentes de participação das empresas, das instituições universitárias e politécnicas, das fundações, das misericórdias, das associações empresariais, dos centros tecnológicos e das organizações não governamentais?
Onde está o fórum nacional encarregado de acompanhar as seis transformações?
Onde estão as responsabilidades partilhadas, os compromissos mensuráveis e os mecanismos de prestação de contas dos diferentes setores?
Ser ouvido numa sessão de auscultação não é o mesmo que participar na decisão. Ser incluído numa lista de entidades a envolver não equivale a partilhar responsabilidades, recursos e capacidade de iniciativa.
Enquanto a sociedade for convocada sobretudo para comentar, validar ou executar o que a Administração Pública já definiu, o Whole-of-Society continuará a ser mais uma legenda do que um verdadeiro modelo de governação.
Defendo há anos, nestas páginas, a ideia da universidade cívica: a instituição de ensino superior que não se limita a formar e a publicar, mas que assume responsabilidade pelo desenvolvimento do território onde se insere, pela saúde das suas comunidades, pela inovação da sua economia e pela sustentabilidade da sua região.
Esta ideia não deve, porém, ser entendida em sentido institucionalmente restrito. A missão cívica pertence a todo o ensino superior, universitário e politécnico, público, privado e cooperativo. Cada instituição, de acordo com a sua natureza, vocação e inserção territorial, pode contribuir para aproximar o conhecimento das necessidades concretas das populações.
Esse ensino superior cívico é o parceiro natural de qualquer roteiro nacional para o desenvolvimento sustentável. O mesmo vale para a empresa cívica: aquela que já percebeu que a sustentabilidade não é apenas um custo de conformidade ou uma obrigação de reporte, mas uma condição da sua competitividade, da sua legitimidade social e da sua capacidade de sobreviver num mundo em transformação.
A boa notícia é que o Roteiro, sendo insuficiente neste ponto, não está fechado.
O Plano prevê a construção de um Painel de Metas e Indicadores para a Sustentabilidade, a produção periódica de relatórios de monitorização e uma primeira edição em 2027. Prevê também a apresentação desses resultados à Assembleia da República e aos órgãos consultivos.
Existe, portanto, uma janela de implementação em que estas ausências ainda podem ser corrigidas.
Fica o repto: que as empresas e as instituições de ensino superior, universitárias e politécnicas, públicas, privadas e cooperativas, reclamem formalmente o lugar que a realidade lhes exige. E que o Estado transforme a auscultação em participação, a participação em compromisso e o compromisso em responsabilidade partilhada.
Os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável não serão alcançados por decreto, nem apenas através de políticas públicas. Serão alcançados pelas pessoas e pelas instituições que todos os dias criam riqueza, produzem conhecimento, formam profissionais, cuidam das comunidades e inovam.
Portugal não chegará a 2030 sem as suas empresas nem sem o seu ensino universitário e politécnico.
O Roteiro ainda vai a tempo de reconhecer quem transforma o país.




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